terça-feira, 28 de setembro de 2010

TEMAS POLÊMICOS

1. A dona-de-casa ou a dona de casa?

Dona de casa sofre até na hora de ser escrita. É com hífen ou não?
Segundo o dicionário Aurélio, devíamos usar hifens (ou hífenes, como preferem alguns):

dona-de-casa. O dicionário Houaiss nos ensinava que devíamos escrever sem hífen:

dona de casa.
E agora, que fazer?
De acordo com as regras ortográficas anteriores ao novo acordo, devíamos ligar por hífen

“os elementos das palavras compostas em que se mantém a noção da composição, isto é,

os elementos das palavras compostas mantêm a sua independência fonética, conservando

cada um a sua própria acentuação, porém formando o conjunto perfeita unidade de sentido”.
Dentro desse princípio, devíamos usar o hífen nas palavras compostas em que os elementos,

com a sua acentuação própria, não conservam, considerados isoladamente, a sua significação,

mas o conjunto constitui uma unidade semântica.
Para ficar mais claro, é interessante observarmos um exemplo inquestionável: copo-de-leite e

copo de leite.
Em copo de leite, sem hífen, cada elemento mantém a sua significação: copo é copo e leite

é leite;

em copo-de-leite, com hifens, temos um conjunto com uma nova unidade de sentido:

copo-de-leite

é uma planta.
A dúvida quanto à dona de casa era se o conjunto forma uma unidade de sentido ou se cada

elemento conserva isoladamente sua significação.
Esse tipo de dúvida acabou com o novo acordo ortográfico. A partir de agora, os compostos

com elemento de conexão só receberão hifens se for palavra ligada à botânica ou à zoologia:

copo-de-leite, banana-da-terra, joão-de-barro, galinha-d’Angola…
Isso significa que os compostos com elementos de conexão que não são nomes de animais ou

plantas devem ser grafados sem hífen: pé de moleque, pé de cabra, general de divisão,

pão de ló, fim de semana, disse me disse, dia a dia, passo a passo…

Assim sendo, agora não há mais dúvida: DONA DE CASA deve ser escrita sem hifens.

2. Não confunda gênero com sexo

Cadeira é um substantivo feminino e banco é masculino. Por mais que você examine uma

cadeira e um banco, não encontrará nenhum sinal do sexo feminino na cadeira nem do sexo

masculino no banco. Bancos e cadeiras não mantêm relações sexuais para fazer

“banquinhos”!!!
Cadeira não é um substantivo feminino porque termina em “a”. Existem várias palavras

terminadas em “a” que são masculinas: o problema, receber um tapa, dar dois telefonemas,

duzentos gramas de presunto…
A distinção do gênero nos substantivos não tem fundamentos racionais. Quem determina

o gênero é a tradição fixada pelo uso. A comparação com outras línguas, mesmo de origem

latina, comprova a inconsistência do gênero gramatical: a viagem / el viaje (espanhol);

o sangue / la sangre (espanhol), la sang (francês)…
Nossos leitores têm algumas dúvidas:
1a) Personagem é masculino ou feminino?
2a) Qual é o feminino de poeta: a poetisa ou a poeta?
Chamamos de SOBRECOMUNS os nomes de um só gênero gramatical que se aplicam,

indistintamente, a homens e a mulheres: o cônjuge, o indivíduo, o sósia, a criança,

a pessoa, a vítima…
São chamados de COMUNS DE DOIS os substantivos que têm uma só forma para os

dois sexos. A distinção é feita pela anteposição de “o”, para o masculino, e “a”, para

o feminino: o/a artista, o/a doente, o/a mártir, o/a jovem…
Na sua origem, PERSONAGEM era um substantivo sobrecomum do gênero feminino,

ou seja, “a personagem” poderia ser usada tanto para a mulher quanto para o homem.

Hoje em dia, porém, PERSONAGEM tornou-se um substantivo comum de dois: a personagem,

para mulheres, e o personagem, para homens. O dicionário Houaiss e o Vocabulário

Ortográfico da Academia Brasileira de Letras consideram PERSONAGEM substantivo

de dois gêneros, ou seja, o/a personagem.
Quanto ao feminino de POETA, temos uma bela polêmica. Segundo a tradição e os

nossos principais dicionários, o feminino de poeta é POETISA. Recentemente,

no meio artístico, tornou-se moda distinguir

A POETISA (=pessoa do sexo feminino que faz poesia)

de A POETA (=mulher que faz poesia de reconhecida qualidade literária).

Trata-se de um juízo de valor que ainda não tem o respaldo da maioria

dos estudiosos e de nossos principais dicionários. Se essa moda “vai pegar”,

só o tempo dirá.
Segundo o mestre e acadêmico Evanildo Bechara:
a) são masculinos: o…clã, champanha, dó, formicida,

grama (unidade de massa/peso), milhar, pijama, sósia, telefonema…
b) são femininos: a…aguardente, alface, análise, bacanal,

cal, cólera, dinamite, libido, síndrome, faringe…
c) são indiferentemente masculinos ou femininos: o ou a…avestruz,

crisma, diabete, gambá, hélice, ordenança, personagem, sabiá, sentinela,

soprano, suéter, tapa, trama…